01/02/2008

ele e o outro

Acordou as duas horas da manhã, num pulo. Levantou da cama quase como num impulso, foi até a janela e percebeu que suava muito. Mais um dia infernal de verão, como todos os últimos haviam sido. Cem dias sem uma gota d`água caindo do céu. Todos se preocupavam com os níveis de reserva de água e abastecimento elétrico. Mas ele se preocupava com outras coisas. Com coisas só dele. Olhou para a rua, vazia. Olhou para cima e viu a lua, cheia. Olhou para a cama e viu o outro, dormindo com uma tranquilidade angelical. Como se o calor não significasse nada. Como se todos os problemas fossem poucos. Como se só existisse aquele sono justo e singelo. E foi aí que percebeu um sentimento inédito.
Ódio. Odiava aquela pessoa que dormia na sua cama. Um ódio tão grande que provocou um arrepio espontâneo na espinha. Ficou cego por alguns segundos, enxergou tudo branco. Só enxergava o ódio. Queria pular naquela cama de uma só vez, agarrar o pescoço com as duas mão, com toda a sua força, e apertar. Apertar até a sua força acabar e precisar socar o rosto do outro. Socar tanto que sangue espirrasse pelo quarto todo. Odiava aquela pessoa. Queria morte.
Sua respiração foi ficando cada vez mais ofegante. O ar foi lhe faltando. Ficou com vontade de gritar no ouvido do outro. Até que seus tímpanos estourassem e ele se deliciasse com todos os dejetos que voariam pelo quarto. Só conseguia pensar em sangue. Precisava molhar o rosto no banheiro pra ver se isso tudo passava. Para ver se era culpa do calor, da fata de água no ar ou se o problema era maior. Cruzou o quarto com o olhar fixo naquele ser que dormia sossegadamente na sua cama. Um sono tão tranquilo que dava vontade de matar.
Ligou a luz branca do espelho e olhou pra si mesmo, vermelho de tanto ódio. De onde viera esse sentimento? Sua respiração estava ofegante. Ele suava e sentia frio ao mesmo tempo. Quis socar o espelho e quebrar a sua própria mão. E esfregar todo o sangue pelo corpo do outro e depois corta-lo com os pedaços de espelho quebrado e misturar os dois sangues, para que virassem apenas um. Olhou os seus próprios olhos no espelho e estavam injetados de sangue. Foi ficando tonto e cada segundo mais desperto.
Precisava sentar e descansar e ver se tudo isso passava. Começava a ficar incomodado de estar assim. Foi ficando mais e mais tonto. Tentava, mas não conseguia ficar em pé. Sentou no chão, sentiu frio e achou estranho. E daí lembrou que estava pelado, sentado no chão de mármore. O contato da sua bunda fervendo com o chão congelado deu um princípio de excitação. Sentiu seu pau ficar duro e um formigamento na barriga, um tesão foi tomando conta. A tontura foi passando e foi acalmando o ódio. Uma vontade de aliviar o que estava explodindo dentro de si mesmo. Seu pau ficava cada vez mais duro. A vontade aumentava proporcionalmente ao calor, que voltava a brotar no seu corpo, agora de outra natureza.
Levantou e olhou-se no espelho e ficou excitado. E sentiu algo diferente. Sentiu vontade de pular na cama e atacar o outro. Agora não mais com intenções mortais. Queria fuder aquela pessoa que dormia singelamente. Queria chegar do nada, enfiar a língua no ouvido, lamber todo o corpo e enfiar seu pau dentro do outro. Um misto de raiva e tesão foi tomando conta. Uma vontade de machucar e ao mesmo tempo ficar junto, perto. Uma vontade de gozar. Só conseguia pensar em porra.
Entrou no quarto e o outro seguia dormindo sossegadamente, sem roupa alguma. Olhou o contorno das suas costas, as suas coxas semi tapadas pelo lençol, seu cabelo despenteado e foi se aproximando aos poucos. Foi sentindo o cheiro da respiração do outro. Chegou bem perto e sentiu algo estranho. Uma mistura de tudo o que sentira nos últimos dez minutos. Um pouco de tesão, um pouco de ódio, um pouco de calor, um pouco de frio, um pouco de formigamento na barriga, um pouco de arrepio na espinha. Imaginou que seria esse o sentimento que todo mundo chamava de amor. Amava aquela pessoa. Olhou os olhos do outro fechados, a respiração calma e deu-lhe um beijo na bochecha. O outro acordou e sorriu o sorriso mais lindo que ele jamais havia visto. Beijou, lambeu, penetrou. E quando os dois gozaram ao mesmo tempo era como se toda aquela porra fosse igual ao sangue que ele queria misturar. E na barriga do outro, a porra dos dois virou uma só.
E ele pôde dormir tranquilo, sem ódio, sem tesão acumulado, sem calor, sem suor mas com a certeza de que tinha feito a escolha certa.

29/01/2008

eu e você

Viajo até o outro lado do mundo pra te olhar. Me contento em simplesmente olhar. Já tive você uma vez. Não tenho mais.
Chego e dou um oi rotineiro, como se não me importasse. Faço a mesma cara de blasé que você me faz. Tudo igual. Tudo diferente. Converso um ou dois assuntos antes de todo mundo chegar. Finjo uma intimidade que não faz mais sentido. Sinto uma dor no peito. Um corte no coração. Um sangramento interno. Estou machucado. Você parece estar bem. Você cercou-se disso. Garantiu seu mundo a parte do meu. O mesmo erro de sempre. Fico feliz por você estar feliz. Olho o seu sorriso e sinto que passo horas olhando pros seus dentes brilhantes reluzindo na sala. Sua boca iluminada. Mas são apenas alguns segundos. E você percebe. Finge que não vê, mas eu sei que você viu. Você se desconcentra. Perde o sentido da frase que falava. Confesso uma diversão interna ao pensar que ainda te desconserto. Mas sei que é só o momento. Logo você retoma o assunto e segue adiante.
E eu fico ali, num canto. Conversando com um ou dois dos seus amigos que um dia foram meus amigos também. Num canto quieto. Olhando pra você de vez em quando. Vendo o seu sorriso rindo pra todo mundo. Rindo pro mundo. Eu fecho meu rosto. Não sinto vontade de rir. Tudo isso me dói. Tenho vontade de começar a chorar ali no meio de todo mundo. Sinto o peso do copo de cerveja na minha mão e penso em como seria simplesmente derrubá-lo. Será que conseguiria a sua atenção? Você viria limpar? Você me olharia com aquela cara que você sempre me olhava? Ou você mandaria eu me virar e pegar um pano e limpar eu mesmo a merda que eu fiz no chão.
E você viraria pro lado e comentaria com um dos seus novos amigos o quanto eu sou perturbado. O quanto você não queria que eu estivesse ali, mas o quanto a obrigação te fez me convidar. E eu ficaria no meu canto, com cara de coitado. Aquela cara que você tanto odiava. Mas nada disso mais existe.
Existe eu e existe você. E nós vamos nos encontrar de vez em quando e sempre vai ser doloroso. Pelo menos pra mim. Vou ter que largar a sua mão. Já segurei o máximo que podia. Olho você abraçando todo mundo. Você falando da sua nova rotina. Da sua nova casa. Não aguento meu ciúmes.
Finjo um cansaço que não existe e vou me despedindo aos poucos de todo mundo. Todos surpresos de eu já estar indo embora. Tenho que trabalhar amanhã, não repara. Bom te ver também. Vejo que você me vê levantado e me despedindo. Você pede desculpas e vai até a porta me esperar.
Olho com os meus olhos tristes pros seus olhos felizes. Olho bem no fundo e vejo que você também está um pouco triste. Será que você sente a minha falta? O amor verdadeiro é o amor cruel. Sinto um prazer imenso em pensar no seu sofrimento por minha causa. Fico com pena de você e do seu sofrimento.
Chego bem perto e te dou um abraço bem apertado. Ficamos os dois num dilema de quem solta primeiro. Ameaço soltar, mas você me prende mais forte. Sinto uma lágrima escorrer no meu olho. Você me solta. Se afasta. Olha com seus olhos tristes pros meus olhos felizes. E a cumplicidade se estabelece de novo. Você engasga a voz mas diz docemente "se cuida". Eu não consigo emitir nenhum som. Apenas aceno com a mão, esboço um sorriso e desço as escadas, evitando olhar pra trás. Chego no fim das escadas e me viro. Lá está você. Olhando. Brilhando. Longe de mim. Já tive você uma vez. Me contento em simplesmente olhar. Viajo de volta até o outro lado do mundo pra poder olhar pra mim mesmo.

28/01/2008

chuva, cabelo e você

Quando eu saía do trabalho, a chuva começou. Como se ela adivinhasse a hora que eu ia estar desprotegido. Desprotegido da sua presença. Sem você. E eu corri até o ponto de ônibus e roguei pragas a mim mesmo por não ter um carro. Mas mesmo assim eu esperei o ônibus na chuva, que escorria pelos meus cabelos bem arrumados. E o ônibus demorou. E meu cabelo desarrumou. E a chuva me molhou e de uma hora pra outra aquela sensação ruim me bateu.
E eu já não sabia mais nada. Se eu queria sorvete ou nuggets. Se eu queria ouvir Madonna ou Portishead. Se eu queria ficar em casa ou sair. Se eu queria você ou outro alguém. E eu fiquei assim, perdido no meio da chuva, com o cabelo despenteado sem saber de mais nada. Nem o meu nome eu sabia mais. Nem passado, nem presente, quiçá futuro. Nem lembrava mais dos sonhos, bons ou ruins que me assombraram no final de semana. Nem do tempo que você estava comigo na minha cama. Nem de você me ajudando a acordar todos os dias.
E daí o ônibus chegou. Nove-um-sete agá. Eu fiz sinal em cima da hora e ele teve que frear quase no último segundo. Fez aquele barulho todo. Todo mundo me olhou. E eu já não sabia por que todo mundo estava me olhando. Se era por causa do meu cabelo, se era por causa da chuva ou se era por que eles sabiam que eu não sabia mais nada.
E quando eu entrei no ônibus todo mundo olhava pra mim. Me encaravam nos olhos, me intimidando. E a insegurança tomou conta. Será que olhavam pra cor do meu cabelo? Será que olhavam pro meu penteado estragado? Será que olhavam minha bunda que rebolava? Será que olhavam pra mim ou pra menina que estava atrás de mim? Fiquei desconfiado e sentei num banco sozinho, longe dos olhares de todo mundo.
Peguei o fone e coloquei a música de maneira aleatória. E verso após verso aquela música foi me dando certeza. Foi me apoiando. Foi me empurrando pro desconhecido. Aquele que dói uma dor gostosa. E eu percebi que estava machucado. Meu corpo doía de tanto que eu queria você. De tanto que eu estava molhado. De tanto que o meu cabelo estava despenteado.
E eu pude olhar pela janela e ter a certeza de que nem meu cabelo, nem a chuva e nem você estar longe de mim podiam me fazer mal. E eu olhei pra chuva e pros meus cabelos despenteados e sorri. Sorri porque eu tenho você. Sorri por que a chuva lavou minhas dúvidas.
E assim, a chuva parou.

final

A: Não dói nada, não se preocupa.
B: Tá me cortando o coração ver você assim.
A: Eu já disse, não dói nada.
B: Por que isso?
A: Não interessa. Não foi por isso que eu pedi a sua ajuda.
B: Então por que pediu? Pra que me chamou?
A: Chamei porque tenho coisas pra dizer. E não poderia deixar de dizer. Não nessa hora.
B: Então diz.
A: Bonito. Você é tão bonito.
B: Bobagem. Você não me chamou aqui pra dizer que eu sou bonito.
A: Chamei sim. Chamei pra dizer que você é a pessoa mais linda que eu já conheci na vida. Que estar perto de você me faz um bem danado pro meu coração.
B: Então vamos continuar juntos.
A: Você sabe que não é tão simples assim.
B: Não é?
A: Agora não mais. Mas deixa eu acabar de falar. Todas as besteiras que eu já fiz pra você são besteiras. Nunca me arrependi tanto de tantas coisas. Mas eu sei que é tarde.
B: Eu não...
A: Por favor, não me interrompe. É tarde. É tarde pra arrependimentos, mas é o que eu sinto. Arrependimento. De ter feito mal pra você e de você ter feito mal pra mim. E eu chamei você aqui porque eu queria que você soubesse. E queria que você soubesse que a gente não é certo um pro outro. Que se a gente ficasse juntos por mais tempo, a gente ia se matar.
B: Você repete tanto as palavras...
A: É um truque barato de quem não sabe o que tem pra dizer. De quem quer ganhar tempo.
B: Que tempo que você precisa ganhar comigo? Você tem todo o tempo do mundo.
A: Não mais.
B: Tá doendo?
A: Já disse que não. Não se preocupa. Você se importa de segurar a minha mão?
B: Não. É o que eu mais quero fazer desde que eu entrei aqui.
A: Então segura. E vamos esperar juntos.
B: Não quero que essa hora chegue. Quero que esse minuto dure pra sempre.
A: Desculpa, mas é tarde demais. Nada dura pra sempre. Nem você. Nem eu. Nem nós.
B: Fica quieto um pouco.
A: Tá bom. Vou ficar quieto aqui. Olhando pra você.
B: Tem certeza que não tá doendo?
A: Não tenho mais certeza de nada. Mas não se preocupa. Tá tudo bem. Pelo menos eu falei tudo isso pra você.

três

Por que você não pega a sua existência e sai de perto?
Por que você não explode?
Pegue a sua vida ridícula e saia de perto da minha.
Salve todos que estão perto da sua presença você mesmo.
Pegue o seu cinismo, sua ironia, sua simpatia, seu sorriso amarelo, sua roupa de marca, seu tênis incrível, seu cabelo milimetricamente bem penteado, seus conhecimentos culturais, seu interesse nas coisas que já passaram, seu passado, seu presente, os presentes que você deu e me deixa em paz.
Me deixe viver a minha vida tranquilo sem que eu precise me preocupar com você. Sem que eu precise lembrar todo dia que você existe.
Vou apertar esse botão e espero que você suma do meu caminho de uma vez por todas.

o medo

Sinto medo de estar vivo. O simples fato de ter que lembrar de inspirar e expirar ar o tempo todo pra dentro do meu corpo me dá medo. E se eu esquecer? E se eu for impedido? Sinto medo de muitas coisas mas, principalmente, sinto medo de muitas pessoas. Medo de ser descoberto. Medo de descobrir. Medo de nunca descobrir. Medo de descobrir tarde demais. Confesso que tenho até medo de dizer que sinto medo. Tenho medo de que saibam que eu tenho medo. O tempo todo, pessoas esperam que a gente não tenha medo de nada. E a gente tenta colocar uma máscara e dizer que não tem medo. Mas é impossível. O medo faz a gente viver.
Passamos o tempo todo com medo da hora que a morte chegar. Temos tanto medo que alongamos o tempo o máximo que podemos. Só isso já seria suficiente pra distrair o medo e não sentir medo. Mas não, passamos nossas vidas com medo. Medo de perguntar e ouvir a resposta que não queremos. Medo de ouvir a pergunta que não sabemos responder. E o pior dos medos, o de passar toda a vida sem fazer nada que valha a pena. E não fazemos as coisas que valem a pena, basicamente, porque temos medo. Talvez um medo besta de atingir o que tanto queremos e nos ver, afinal, sem objetivos.
Daí ficamos com medo de nos aproximar, nos afastar, de dizer, de não dizer, de ser, de não ser, de estar, de não estar. E as outras pessoas com o mesmo medo. E assim criam-se os silêncios, os afastamentos, os mal-entendidos, os amores errados, a falta de amor. Pensando em todo esse medo, presente em mim, em você, em todos nós que eu ouso afirmar que o medo sentido por todos nós é mínimo se comparado com o medo que temos de simplesmente viver.

preciso

Preciso ouvir novas músicas. Me indica?
Preciso parar de ouvir as mesmas músicas. Me impede?
Preciso de novos filmes, de novas empolgações. Me mostra?
Preciso de você. Me dá?
Preciso limpar o banheiro. Me desinfecta?
Preciso lavar quilos de roupas. Me perfuma?
Preciso curar as feridas. Me cura?
Preciso dormir cedo e acordar tarde. Me dopa?
Preciso pensar em coisas que não me façam pensar em nada. Me segura?
Preciso ter paz de espírito. Me acalma?
Preciso concentrar no que realmente importa. Me concentra?
Preciso parar de sangrar. Me fecha?
Preciso parar de morrer um pouco a cada dia. Me interrompe?
Preciso começar a fazer abdominais. Me estimula?
Preciso saber onde você está. Me diz?
Preciso de você. Me dá você de presente?
Preciso de mim. Me ajuda a achar?
Preciso de remédios. Me prescreve?
Preciso rir. Me faz rir?
Preciso me deprimir. Me joga coisas na cara?

monólogo

Escuta, deixa eu falar. Preciso falar de uma só vez assim, do nada, senão não sai. Então não me interrompe. Não me interrompe que eu admito que não sei viver mais sem você. Me escuta e acredita que ter você é quase um sinônimo de não me ter mais. Porque eu já não sou mais eu. Eu sou nós. Eu sei que eu pedi por isso há tanto tempo. Eu não me arrependo. Longe disso. Eu adoro não ser mais eu. Depois de quase trinta anos a gente cansa de ser apenas a gente mesmo. E quer ser mais. Entende? Com você eu sou mais. Eu sou muito mais. Eu sou mais do que três ou quatro letras. Eu sou mais do que uma pessoa que anda por aí sem destino. Eu sou aquele que espera por você. E isso é um pouco triste. Mas não chora, por favor. Te peço, não chora. Pode parecer ruim, mas não é. Eu só preciso me acostumar. Depois de tanto tempo não precisando de nada e de ninguém, de repente eu me vejo ansioso, triste, alegre, cheio de esperança e até, veja que ironia, otimista. Uma avalanche de coisas, de sentimentos, de sensações que me tiram o sono sem a menor dó. Você não tem dó de mim. E eu não quero a sua pena. Eu quero o que eu já tenho. Você e eu juntos. Sou egoísta quando o assunto é você. Culpa sua. Sou ciumento quando o assunto é você. Culpa sua. A culpa é toda sua. Calma, eu não acabei. Ainda não me interrompe. Nossa, eu tenho tanto pra falar, a minha cabeça anda a milhão. Trilhões de pensamentos que se encavalam, que ficam se confundindo e me levando pra todas as direções possíveis. Mas vê, todas as direções me levam direto a você. Sem escalas. E eu não quero escalas. Eu quero você e eu. Nós. Eu sei que eu já tenho isso. E eu não preciso de mais nada. Agora a minha confusão é tanta que eu já não sei mais o sentido disso tudo. Eu olho bem dentro dos teus olhos e não sei mais por que eu comecei isso tudo. Eu olho pra você e só quero te beijar. Só quero abraçar você bem apertado. Tão apertado que você reclame de dor. E eu possa gritar bem baixinho no seu ouvido que eu amo você. Me escuta. Eu amo você.

#1

- Olha pra mim.
- To te olhando.
- Puta merda, já tinha esquecido como os seus olhos são bonitos.
- Não fica me elogiando. Não precisa.
- Mas eu quero.
- Tá bem.
- Você sabe, por todo esse tempo eu..
- Pára, por favor.
- Por que?
- Porque esse papo não vai nos levar a nada, você sabe.
- Eu não sei.
- Sabe sim, criatura.
- Eu adoro quando você me chama de criatura. Faz eu me sentir em casa.
- Entendo.
- Como você aprendeu a ser gelado desse jeito, heim?
- Aprendi. Sei lá como. Tem tanta coisa que a gente não sabe como aprende e quando vê, paft, aprendeu.
- Você aprendeu a ficar sem eu por perto, né?
- Digamos que isso eu ainda não consegui. Sabe Deus por que.
- Deus não tem nada a ver com isso, você sabe.
- Então me diz quem tem a ver com isso. Me ajuda porque eu tô tentando entender o que aconteceu há um ano e não tenho a menor idéia.
- Eu…eu…
- Não vem me dizer que você não sabe. Quantas noites eu fiquei aqui olhando pro teto, ouvindo música, no escuro, sem roupa, pensando se eu conseguia responder uma pergunta muito simples: por que você me deixou?
- (silêncio)
- Você sabe muito bem porque você foi. Só que você não tá conseguindo admitir pra você mesmo, quem dirá pra mim.
- Por favor, não dificulta as coisas, eu não sei mesmo o que aconteceu. Fiquei fora de mim. Pirei. Você nunca teve um momento desses?
- Já tive sim. Mas eu não deixei escapar a pessoa que eu amava. Ou então, você nunca me amou. Será que é isso?
- Não mesmo. Nem pensa em uma coisa dessas. Eu te amo tanto, que você nunca vai conseguir entender. O sentimento é tão grande que eu não consigo nem colocar em palavras. Você entende isso? Eu sou o rei das palavras e não consigo achar nenhuma pra definir o que eu sinto por você. E cada dia que se passou desde que eu saí desse maldito apartamento, desde o dia em que eu me dei conta que eu não tinha mais você, desde o dia em que eu tentei de todas as formas possíveis voltar pra essa cama que a gente tá deitado agora, cada mísero dia que se passou, não teve um que eu tive tranquilidade. E agora, deitado aqui do seu lado, eu sinto tranquilidade. Eu sinto paz. Será possível que tudo isso não tá dentro de você também? Eu juro que eu não acredito.
- Claro que eu sinto ainda muita coisa…
- Não chora que me corta o coração. Não consigo ver você chorar. Não consigo imaginar ouvir os seus soluços de choro, que nem naquele dia que eu disse que tava indo embora. Todos os dias eu ficava me lembrando deles. E me odiando cada vez mais por ter provocado tudo isso em você. Não é justo. Com você.
- Você mudou.
- Você também.
- Mas eu acho que você mudou para o bem. Eu acho que eu só mudei pro mal. Fiquei mais egoísta, pensei mais em mim, esqueci dos outros. Você tá mais racional. Tá conseguindo dizer tudo o que tá entalado na sua garganta. Eu não consigo te dizer tudo o que eu quero dizer.
- Fala. Fala o que você quer dizer. Nada pode ser tão ruim assim que possa piorar.
- Eu te amo.

ombros, ou bette davis

Eu não me importo com o sofrimento dos outros. Eu não me importo com o frio. Eu não me importo em dormir sozinho. Eu não me importo em cozinhar apenas pra mim. Eu não me importo em sair de balada sozinho. Eu não me importo com a paz mundial. Eu não me importo com a pobreza. Eu não me importo com Deus. Eu não me importo com o Diabo. Eu não me importo com injustiças. Eu não me importo com o que os outros pensam de mim. Eu não me importo se tem gente que não gosta de mim. Eu não me importo se eu não sei escrever direito. Eu não me importo em dizer que eu não sei. Eu não me importo em rir muito alto em lugares públicos. Eu não me importo (mais) se eu rebolo na rua ou não (eu sei que não). Eu não me importo com o meu corpo. Eu não me importo com quem está longe demais e não faz o menor esforço pra me procurar. Eu não me importo com programas piratas no meu computador. Eu não me importo em dormir depois de gozar. Eu não me importo se você não me ligar no dia seguinte. Eu não me importo se um dia eu morrer. Eu não me importo em dormir tarde e acordar cedo. Eu não me importo com a Copa do mundo. Eu não me importo com nenhuma manifestação popular. Eu não me importo se eu sou brasileiro. Eu não me importo se eu não nasci "nas gringa". Eu não me importo com a música brasileira. Eu não me importo com a cultura negra. Eu não me importo com a cultura judaica. Eu não me importo com religião nenhuma. Eu não me importo com quem lê esse blog. Eu não me importo se eu passo uma semana sem escrever. Eu não me importo se você sofre por mim. Eu não me importo se você acha que eu não levo minha vida decentemente. Eu não me importo se o mundo acabar. Eu não me importo com política. Eu não me importo com o maldito campeonato de pingue pongue no meu trabalho. Eu não me importo em fazer carão na balada. Eu não me importo em beijar sem perguntar o nome. Eu não me importo em nem saber o seu nome. Eu não me importo em estar sozinho. Eu não me importo com esse tal de dia dos namorados.
Se eu me importo com alguma coisa? não sei, não importa.