28/01/2008

chuva, cabelo e você

Quando eu saía do trabalho, a chuva começou. Como se ela adivinhasse a hora que eu ia estar desprotegido. Desprotegido da sua presença. Sem você. E eu corri até o ponto de ônibus e roguei pragas a mim mesmo por não ter um carro. Mas mesmo assim eu esperei o ônibus na chuva, que escorria pelos meus cabelos bem arrumados. E o ônibus demorou. E meu cabelo desarrumou. E a chuva me molhou e de uma hora pra outra aquela sensação ruim me bateu.
E eu já não sabia mais nada. Se eu queria sorvete ou nuggets. Se eu queria ouvir Madonna ou Portishead. Se eu queria ficar em casa ou sair. Se eu queria você ou outro alguém. E eu fiquei assim, perdido no meio da chuva, com o cabelo despenteado sem saber de mais nada. Nem o meu nome eu sabia mais. Nem passado, nem presente, quiçá futuro. Nem lembrava mais dos sonhos, bons ou ruins que me assombraram no final de semana. Nem do tempo que você estava comigo na minha cama. Nem de você me ajudando a acordar todos os dias.
E daí o ônibus chegou. Nove-um-sete agá. Eu fiz sinal em cima da hora e ele teve que frear quase no último segundo. Fez aquele barulho todo. Todo mundo me olhou. E eu já não sabia por que todo mundo estava me olhando. Se era por causa do meu cabelo, se era por causa da chuva ou se era por que eles sabiam que eu não sabia mais nada.
E quando eu entrei no ônibus todo mundo olhava pra mim. Me encaravam nos olhos, me intimidando. E a insegurança tomou conta. Será que olhavam pra cor do meu cabelo? Será que olhavam pro meu penteado estragado? Será que olhavam minha bunda que rebolava? Será que olhavam pra mim ou pra menina que estava atrás de mim? Fiquei desconfiado e sentei num banco sozinho, longe dos olhares de todo mundo.
Peguei o fone e coloquei a música de maneira aleatória. E verso após verso aquela música foi me dando certeza. Foi me apoiando. Foi me empurrando pro desconhecido. Aquele que dói uma dor gostosa. E eu percebi que estava machucado. Meu corpo doía de tanto que eu queria você. De tanto que eu estava molhado. De tanto que o meu cabelo estava despenteado.
E eu pude olhar pela janela e ter a certeza de que nem meu cabelo, nem a chuva e nem você estar longe de mim podiam me fazer mal. E eu olhei pra chuva e pros meus cabelos despenteados e sorri. Sorri porque eu tenho você. Sorri por que a chuva lavou minhas dúvidas.
E assim, a chuva parou.

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